Ela tinha as unhas curtas. Não porque ela as roia. Mas é que as unhas não queriam crescer. Seu corpo também, como ela e as unhas, tinha um certo tipo de complexo, de Peter Pan. Daí o envolvimento sempre com pessoas mais novas.
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Ela tinha os cabelos lisos. Mas sonhava que os mesmos fossem encaracolados. Nos contos de fadas todas as princesas tinham longos cabelos dourados com cachos perfeitos, que nunca se desmanchavam. Então, ela cortava as madeixas bem curtas e fingia que era feliz assim.
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Quando pequena. Bem pequena. Ela queria ser a prima mais velha. A prima alta, de cabelos longos e cacheados. Que sempre ganhava vários presentes no Natal. Os maiores ovos na Páscoa. Que tinha uma bicicleta rosa com cestinho. E que, além disso tudo, era descontraída e inteligente.
Ela não. Ela era meio tímida. Educada demais. Boba até. Só foi ganhar ovo de Páscoa depois de grande.
Sentia-se inferior. Pobre. Burra. Infeliz. E morena.
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Tinha seus problemas, sim. Como todos.
Mas ela achava que os dela eram maiores.
Mesmo quando a mãe tentava mostrar que não.
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Quando pequena, havia um quadro que lhe roubava a atenção no quarto de brincar. Ela sempre parava para ficar olhando.
Um rosto de Cristo grande estilizado, pintado com todas as cores em um pedaço de tecido.
Ela achava que Deus era assim, do jeito que a mãe falava: “de todas as cores”: vermelho, rosa, amarelo... Ele era um Deus bom. Tão bom. Afinal, tinha dado para ela uma família. Pai, mãe, um irmãozinho e comida na mesa. Ela fora educada a pensar assim.
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A mãe falava que não precisava ir para igreja encontrar Deus. Costumava dizer que Deus estava em todos os lugares. No desabrochar da flor, no sorriso da criança, no sol, no vento... Por isso, sempre que ventava ela fechava os olhos e imaginava um suave beijo em seu rosto infantil.
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Ela ainda o tinha. O rosto. A feição meio que de criança. Quando iria perdê-la?
Já beirava os 30. Deveria ficar feliz com isso. Mas até gostava das poucas rugas que ameaçavam em contornar os olhos quando sorria escancaradamente.
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Publicado em 16 de julho de 2008 às 22:18 por sarap