Então, naquele dia fatídico, a ela nada restava.
Sim, tinha amigos. E nem eram poucos. Mas ela não recorreria a eles. Não por orgulho ou por não confiar. Mas, ficava tão agressiva quando estava mal que preferia poupá-los de tal.
Havia a especialista. A psicóloga. Achou ser demasiadamente humilhante ligar para a terapeuta numa situação dessa. E além do mais a coitada estava grávida. Tinha família, seus problemas, não merecia atender uma paciente em pleno sábado à tarde.
Família... Pior seria! Iriam querer tanto ajudar que acabariam palpitando demais, até no modo de sofrer.
Deus?!? Não. Ela não conversava mais com Ele. Não sabia como fazê-lo.
(...)
Ela não sabia por onde sair. A quem recorrer. Queria colo. Alguém que lhe afagasse a cabeça. Simples assim. Sem palavras. Sem explicações. Um consolo mudo. Só de toque. Só de olhar.
Assistir a televisão só iria disfarçar momentaneamente a dor, depois, teria de enfrentá-la de qualquer jeito.
Música... Internet... Livro. Nada!
Ela não tinha mais nem vontade de se mexer.
Sentia frio, mas não tinha coragem de buscar uma coberta. Merecia até aquilo.
Tinha um misto de fome e ânsia.
Decidiu tomar um banho. Aprendeu outrora que a água lavava a alma. E quem sabe ajudaria apagar as memórias da mente e as lamentações do coração.
(..)
Enquanto a água corria pelo seu corpo, ela se achava feia. Gorda. Desproporcional.
Sentia-se frustrada.
Descartável.
(...)
Já não era tão nova.
Deu-se conta, que era hora de correr enquanto havia tempo.
Correr contra o tempo.
A tarefa mais difícil de todas.
Por instantes sentiu-se como uma guerreira. Forte. Um ímpeto de luta. Viu-se novamente com esperanças.
Sim! Ela poderia mudar esta situação. Levantaria a cabeça e sairia às ruas com orgulho do que aconteceu. Afinal, ela havia tentado. As pessoas não a julgariam nem a cobrariam. Seria feliz de novo. Só dependia dela. Fora da janela, o sol brilhava forte no céu azul e o vento gelado era um presságio de bons novos tempos.
(...)
Fechou a torneira.
E junto com a água esvaiu-se também o seu sonho.
Não, as coisas não mudariam.
Sim, ela continuaria sozinha.
Não, ela não tinha mais esperanças.
Sim, ela errou outrora.
Não, ela ainda não havia se perdoado.
Sim, ela queria voltar atrás e fazer diferente. Desde a primeira vez.
Não, não tinha como.
Sim, ela já havia dado outras chances. Para ela mesma. E para outros.
Não, ela não queria que fosse assim.
Sim, ela estava desamparada.
Não, ela não queria mais lutar.
Sim, ela entregaria os pontos.
(...)
E entre a tempestade de sim e nãos ela resolveu dormir para não ter mais que pensar.
Hibernaria, ela pensava. Dormiria, com o intuito de não mais acordar.
(...)
Publicado em 07 de julho de 2008 às 18:37 por sarap
Se bem que esses dias eu também entreguei os pontos. O cara que fez a cirurgia ficou com eles.
E talvez tenha alguma promoção em que você entrega os pontos e troca por cerveja...aí é bom hein?
E não esquenta a cabeça com isso, nem com os outros. Os outros que se fodam! Quanto mais se pensa, menos se encontra, e menos se raciocina.
Nessa hora temos que ser vegetarianos: manda tomate cru!
É só o que digo.
Brgbj, te espero sábado. Meio-dia.