E então o jogo havia acabado
Em suas mãos só lhe restavam poucas e insignificantes cartas para a ocasião
Ela tinha ímpetos de blefar, afinal já estava tudo perdido mesmo, pensava
Mas preferiu ser justa. Honesta consigo e com o adversário
Esparramou as cartas sobre a mesa
Mostrou o que tinha, identificou os erros. Os acertos
Ele não se interessou
Nem pela sua sinceridade. Nem pela suas cartas
Há tempos ele não jogava mais com ela
Ele nem sabia quem era aquela pessoa a sua frente
Ela jogava sozinha
(...)
Não, ele não muda.
Mas a gente sim.
Sim, às vezes ele machuca. E se o faz é porque a gente gostaria que tivesse sido diferente.
Os planos escaparam pelas mãos. Fugiram sem deixar vestígios.
Por que teimar em revê-lo? Revivê-lo?
Porque faz parte da nossa vida. Da nossa história.
O fato de ele vir à tona não é para burlar o agora.
Não tem o intuito de suscitar a dor.
É para que tentemos compreendê-lo. Degluti-lo.
(...)
Então, convido você:
Vamos comer passado?
Ela o procura pelo cheiro
Baunilha de cor azul
Não corre mais. Agora anda
Ela espera que os dois se trombem como numa situação inesperada
Em um cruzamento
À noite, ajoelha e reza
Não conta mais ovelhas
O sono é avassalador
E o sonho traz revelações curiosíssimas
Ela gosta mais de dormir
Lá a dor é controlável (e é de mentira!)
Ela o sabe até durante o devaneio
A Fera não virou príncipe mas ela o aceita mesmo assim
Sabe que um dia será redimida
E talvez ele volte com os olhos cristalinos
Hálito de aniz e cabelos molhados de banho
A vida dói.
O peito dói.
As costas também.
(...)
E o meu mundo oscila entre estar bem e mal.
(...)
Ora me amo. Ora me odeio. (O último é mais costumeiro!)
Ora tenho certeza de que tudo está no caminho e vai dar certo.
Ora tenho plena convicção de que já era.
(...)
Minhas convicções se revezam entre esperança e desilusão.
(...)
Escrevo e apago.
Igual fiz com a minha vida.
Por isso não sou boa em nada. Larguei tudo o que comecei (principalmente o que tinha potencial.)
(...)
Agora escrevo sem me preocupar em quem vai ler. Ou se está “bonito”. Escrevo para esquecer. Para tentar tirar de dentro de mim este algo que me incomoda e que ainda não identifiquei o que é. Aos domingos fica pior. Cresce. Toma dimensões avassaladoras, alarmantes. Escrevo para aliviar a dor. Dor que nem sempre dói. Às vezes é só angústia que aperta, sufoca. Provoca um mal estar. Sem contar a tontura e a sensação de desfalecimento.
(...)
Preferia que minha dor ardesse. Ela tem sido morna demais para mim. Isso me mata homeopaticamente.
(...)
Tem dias que a gente acorda e é só dor.
Sonhos que nos remetem a lembranças, ao passado e nos deixam atônitos durante horas.
(...)
Errei tanto nesta vida.
Olho para trás e me arrependo de ter sido tão intensa. Tão sedenta de emoções, sentimentos e sensações.
Não pensei em quem realmente merecia.
Fiquei cega durante certo período.
Não pesei. Não fui racional.
Hoje me dou conta disso.
Fui egoísta.
(...)
Tentei voltar atrás. Jogar tudo para o alto. Largar o que construí.
Você fechou as portas.
Não deu uma esperança sequer.
Fiquei sem chão.
Sem lugar para onde correr.
(...)
Oportunidades surgiram. Eu as abracei.
Tentei reconstruir. Aceitar quem dizia me querer.
Mas as coisas não são tão simples assim.
(...)
Você nunca saiu da minha vida, mente e coração.
(...)
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sozinha, sozinha, sozinha.
feliz, feliz, feliz.
(viu como não tem graça meus textos quando estou bem?)
Meu inferno é aqui. Eu quem o crio.
Monto-o como uma massinha de modelar.
Vou dando forma e com um simples sopro, vida.
(...)
Meus monstros estão dentro de mim.
No meu não-sono.
Em meus anseios e frustrações.
Na minha descrença.
No meu não-rezar.
(...)
Minhas fraquezas sou eu.
Toda minha timidez disfarçada de espontaneidade.
Arrogância fantasiada de simpatia.
E todo meu medo encoberto pela coragem.
(...)
Essa sou eu.
Fraca. Dissimulada.
Nem boa. Nem ruim.
Apenas eu.
Em um momento não tão bom assim.
(...)
Então, cansado, ele decidira abandonar a profissão. Concluira ser jovem demais para seguir com a jardinagem para o resto da vida. Ele só tinha 24 anos. Tinha tanto para aprender. Resolvera estudar. Talvez história, sociologia, artes, algo que o tirasse do meio dos espinhos. Suas mãos, que tanto embelezaram o jardim, também sofreram com arranhões e estavam cansadas de lidar com tamanha realidade. Queria algo que não fosse tão palpável assim.
(...)
A flor, por sua vez, arriscou uma chantagem emocional ficando murchinha, como se questionasse quem cuidaria dela agora. Mas, vendo-se impossibilitada de mudar a vontade do jardineiro, consentiu, deixando-o partir.
(...)
A chuva veio e com ela o frio. E a flor, mais uma vez, ficou despetalada.
(...)
Triste. Triste como neve em montanha. Branca. Fria. Solitária. Distante.
Tenho chorado. Não muito. Um pouco só. O suficiente.
Suficiente para lembrar e me autoflagelar de novo. E mais uma vez. E outra. E mais outra.
Faço isso. Condeno-me. Torturo-me, com lembranças, cartas, e-mails, presentes, cheiros.
E abro guarda para você fazer o mesmo. Pisar em mim. Cuspir. Escarrar.
Que prazer é esse? (...)
Por que me rendo a isso?
Por que me permito ficar assim?
Por que busco essa dor inconsolável?
Dor, que de tão fria, queima.
E minha dor é assim. De um branco azulado. Sem vida, sem sol, sem energia. Apática. Passiva. Cabisbaixa. Cambaleante.
Que oscila: ora derrete, ora congela novamente.
(...)
Ela chegou sem pedir licença. Reapareceu do nada, nem sequer foi convidada. Nem bateu na porta. Foi entrando assim, sem mais nem menos. E tão de mansinho, que até deixei ela ficar. Parecia tão inofensiva. Mas, como quem não quer nada, ela se alojou. Tomou conta. Posse. E aos poucos, sem escolha, me entreguei novamente. Esperta! Seus passos foram premeditados. Ela é fria. Calculista. Executou seu plano de maneira minuciosa. Agora, quem olha de fora, nos vê, de braços entrelaçados. Às vezes umas cotoveladas contundentes, mas não há nada, nada nesse mundo que nos faça separar. Ela é minha e sou dela. Ela me persegue. E eu a encalço. A amo e a odeio. Sou sua escrava, serva. Ela é minha deusa. Minha vida. Tudo o que tenho. E o que me resta.
“Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
(...)
Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
(...)
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais...”
Ela tinha as unhas curtas. Não porque ela as roia. Mas é que as unhas não queriam crescer. Seu corpo também, como ela e as unhas, tinha um certo tipo de complexo, de Peter Pan. Daí o envolvimento sempre com pessoas mais novas.
(...)
Ela tinha os cabelos lisos. Mas sonhava que os mesmos fossem encaracolados. Nos contos de fadas todas as princesas tinham longos cabelos dourados com cachos perfeitos, que nunca se desmanchavam. Então, ela cortava as madeixas bem curtas e fingia que era feliz assim.
(...)
Quando pequena. Bem pequena. Ela queria ser a prima mais velha. A prima alta, de cabelos longos e cacheados. Que sempre ganhava vários presentes no Natal. Os maiores ovos na Páscoa. Que tinha uma bicicleta rosa com cestinho. E que, além disso tudo, era descontraída e inteligente.
Ela não. Ela era meio tímida. Educada demais. Boba até. Só foi ganhar ovo de Páscoa depois de grande.
Sentia-se inferior. Pobre. Burra. Infeliz. E morena.
(...)
Tinha seus problemas, sim. Como todos.
Mas ela achava que os dela eram maiores.
Mesmo quando a mãe tentava mostrar que não.
(...)
Quando pequena, havia um quadro que lhe roubava a atenção no quarto de brincar. Ela sempre parava para ficar olhando.
Um rosto de Cristo grande estilizado, pintado com todas as cores em um pedaço de tecido.
Ela achava que Deus era assim, do jeito que a mãe falava: “de todas as cores”: vermelho, rosa, amarelo... Ele era um Deus bom. Tão bom. Afinal, tinha dado para ela uma família. Pai, mãe, um irmãozinho e comida na mesa. Ela fora educada a pensar assim.
(...)
A mãe falava que não precisava ir para igreja encontrar Deus. Costumava dizer que Deus estava em todos os lugares. No desabrochar da flor, no sorriso da criança, no sol, no vento... Por isso, sempre que ventava ela fechava os olhos e imaginava um suave beijo em seu rosto infantil.
(...)
Ela ainda o tinha. O rosto. A feição meio que de criança. Quando iria perdê-la?
Já beirava os 30. Deveria ficar feliz com isso. Mas até gostava das poucas rugas que ameaçavam em contornar os olhos quando sorria escancaradamente.
(...)
Então, naquele dia fatídico, a ela nada restava.
Sim, tinha amigos. E nem eram poucos. Mas ela não recorreria a eles. Não por orgulho ou por não confiar. Mas, ficava tão agressiva quando estava mal que preferia poupá-los de tal.
Havia a especialista. A psicóloga. Achou ser demasiadamente humilhante ligar para a terapeuta numa situação dessa. E além do mais a coitada estava grávida. Tinha família, seus problemas, não merecia atender uma paciente em pleno sábado à tarde.
Família... Pior seria! Iriam querer tanto ajudar que acabariam palpitando demais, até no modo de sofrer.
Deus?!? Não. Ela não conversava mais com Ele. Não sabia como fazê-lo.
(...)
Ela não sabia por onde sair. A quem recorrer. Queria colo. Alguém que lhe afagasse a cabeça. Simples assim. Sem palavras. Sem explicações. Um consolo mudo. Só de toque. Só de olhar.
Assistir a televisão só iria disfarçar momentaneamente a dor, depois, teria de enfrentá-la de qualquer jeito.
Música... Internet... Livro. Nada!
Ela não tinha mais nem vontade de se mexer.
Sentia frio, mas não tinha coragem de buscar uma coberta. Merecia até aquilo.
Tinha um misto de fome e ânsia.
Decidiu tomar um banho. Aprendeu outrora que a água lavava a alma. E quem sabe ajudaria apagar as memórias da mente e as lamentações do coração.
(..)
Enquanto a água corria pelo seu corpo, ela se achava feia. Gorda. Desproporcional.
Sentia-se frustrada.
Descartável.
(...)
Já não era tão nova.
Deu-se conta, que era hora de correr enquanto havia tempo.
Correr contra o tempo.
A tarefa mais difícil de todas.
Por instantes sentiu-se como uma guerreira. Forte. Um ímpeto de luta. Viu-se novamente com esperanças.
Sim! Ela poderia mudar esta situação. Levantaria a cabeça e sairia às ruas com orgulho do que aconteceu. Afinal, ela havia tentado. As pessoas não a julgariam nem a cobrariam. Seria feliz de novo. Só dependia dela. Fora da janela, o sol brilhava forte no céu azul e o vento gelado era um presságio de bons novos tempos.
(...)
Fechou a torneira.
E junto com a água esvaiu-se também o seu sonho.
Não, as coisas não mudariam.
Sim, ela continuaria sozinha.
Não, ela não tinha mais esperanças.
Sim, ela errou outrora.
Não, ela ainda não havia se perdoado.
Sim, ela queria voltar atrás e fazer diferente. Desde a primeira vez.
Não, não tinha como.
Sim, ela já havia dado outras chances. Para ela mesma. E para outros.
Não, ela não queria que fosse assim.
Sim, ela estava desamparada.
Não, ela não queria mais lutar.
Sim, ela entregaria os pontos.
(...)
E entre a tempestade de sim e nãos ela resolveu dormir para não ter mais que pensar.
Hibernaria, ela pensava. Dormiria, com o intuito de não mais acordar.
(...)
Dizem que nada acontece por acaso.
Dizem que o que aqui se faz, aqui se paga.
Tenho consciência disso.
Só receio minha punição ser maior que o meu crime.
Essa é a minha impressão.
Ninguém mandou você bater por alguém tão diferente!
(...)
Já falei: só bata quando ouvir o outro bater!
(...)
Coração sozinho não faz samba, meu bem!
(...)
Coração que bate sozinho gera sobrecarga, dá pau e fica um bom tempo em manutenção.
(...)
Se fodeu, coração!
Então, ela ganhou um brinquedo. Aqueles de montar, sabe? Mas, ela não queria fazer uma casinha normal, então, ela montou um castelo. Daqueles pequenos mas bonitos. Tinha um jardim na frente. Meteu-lhe um céu azul e pássaros voando por toda parte. Desenhou um cenário com árvores frutíferas e flores das mais diversas cores. O castelo era perfumado. Cheirava laranja com baunilha. Ela sonhava em ir morar lá. Em sua fantasiosa imaginação de criança, ela já o fazia. Brincava com os coelhos do lado de fora e agarrava o gato do lado de dentro. Trocava de roupas 4 vezes por dia. Uma vestimenta para cada ocasião. E como se sujava muito, sempre carregava uma troca extra. Colhia as margaridas para enfeitar a sala. Quando o sino tocava, era hora do almoço. Sorvete de chocolate com calda de morango, por favor! Ela pedia sem ordenar.
(...)
Então, certa vez, durante o jantar, sentada sozinha na gigante mesa da copa, ela já não tinha apetite. A noite tinha caído e com ela as estrelas penduradas no varal do céu. Debruçada sobre os talheres, olhou através da janela e pela primeira vez percebeu que estava só. De que adiantava um castelo todo para ela se não havia ninguém para compartilhar?
(...)
Ela era filha única, brincava sozinha... Em seu castelo não tinha príncipe.
De onde vem essa vontade? E por que justo agora? Sempre quando as coisas vão bem... Parece-me um autoboicote. Fico só na pré-felicidade. No consórcio sem contemplação. No Natal, sem presentes. Só a espera. A perspectiva.
(...)
Não sei se crio minhas próprias desilusões. Talvez eu mesma as construa. Teço-as lentamente. Fio a fio. Ponto por ponto. Algumas pinicadas às vezes para acordar. Mas, na maioria do tempo, eu já tenho conhecimento do que está por vir. É como se eu as previsse. Antevisse. Premeditasse. Então, preparo-me para melhor asilar as mais novas frustrações em mim. Deglutir as angústias. Assimilar os fatos.
(...)
O fato. É e assim será. O autoboicote existe, ou eu que sou ridiculamente exigente.
Ela a cumprimentou como se fosse uma pessoa qualquer. A sala, meio escura, tinha umas luzes que incomodavam a visão. Da vez passada também tinha sido por causa da luz. Seria desculpa inconsciente de vontade de fugir, ou realmente deveria ter algum tipo de fotofobia. Mas o engraçado é que isso só acontecia nesses lugares. O fato é que se “faz sentido isso”, a pedra e os objetos espalhados no ambiente, indicavam um certo ar infantil. Mas ela sabia que ali não era lugar de crianças. Não crianças de verdade. Apenas crianças que só cresceram de tamanho. Talvez ela o fosse. Talvez seria o caso. O motivo de estar mais uma vez em um daqueles lugares. Ela a media. As mãos apertadas. O olhar aflito de quem busca uma saída. O coração disparado. A garganta seca a fazia engolir grosso e os pensamentos conturbados não a deixavam proferir nem sequer uma palavra. Mas o que dizer num momento desses? Ela procurava alguma frase que se encaixasse, mas nada. Aprendeu que melhor mesmo era ficar quieta a dizer alguma besteira apenas para fazer cerimônia. O silêncio já dizia tanto. E naquele momento ela só tinha ouvidos...
Tivera duas opções: a paixão e o amor.
Ela já experimentara as duas.
Da primeira vez, largara o amor para viver uma grande paixão, que por fim não deu certo. Chegou até se arrepender da loucura que cometera.
Em outro momento, talvez por ironia do destino, optou abandonar uma outra paixão para voltar àquela, a primeira, que, com o tempo, se transformara em amor.
Duas opções. Coração e razão. E as duas, a mesma.
Você!
Amo amar.
Mas, percebi que só sei amar desesperadamente.
Só sei amar aquele amor que dói. Que machuca de tão intenso que é.
Não sei o porquê. Apenas me dei conta disso.
Então, tenho fases.
Agora estou na etapa do amor que não chega a machucar, mas também não o é tão suave assim.
No momento, o meu amar pinica.
(...)
Pink e Vemelho, cores que não choram.
Não sabem chorar. São alegres demais para tal.
O Azul, nasceu com lágrimas nos olhos.
O Verde, sofre de angústia.
E o Cinza, depressão profunda.
O Amarelo ri. Um riso escancarado.
E quando encontra o Alaranjado, dão rodopios por onde passam.
O Roxo é contido. A cor de quem sofreu e amadureceu. A dor dele já passou. Mas está ali, exposta para que todos vejam, se recordem e o respeitem.
O Preto é autista. Vive em seu mundo. E por mais que o misturem com os outros. Ele está lá. Preto. Sempre.
Só não pode encontrar com o Branco, aí, ele se desfaz, dependendo da proporção que o outro entra na sua vida.
Dissolve-se, amolece. Ganha vida e com ela todas as alegrias e desilusões que a mesma traz.
(...)